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"Quando eu era jovem, mais jovem do que antes
Eu nunca vi a verdade esperando na porta
E agora eu estou mais velho, vejo-a face a face
E agora eu estou mais velho, preciso levantar e limpar
o lugar
E eu era mais verde, mais verde que a colina
Onde as flores cresciam e o sol brilhava firme
Agora eu estou mais escuro que o mar profundo
Apenas me segure, dê-me um lugar para ficar
E eu era forte, forte ao sol
Eu pensei que veria que o dia estivesse terminado
Agora eu estou mais fraco que o azul mais pálido
Tão fraco nessa necessidade de correr"
Eu ainda ei de conseguir entender o que correr significa pra mim, obrigado Nick Drake, a sua poesia elucida a minha.
É saber que hoje é último dia, é andar nos trilhos de linhas desativadas, é correr e correr. É acordar e perceber que o sol ainda não nasceu, é acordar e perceber que o sol já se pôs. É não ter medo de altura, é… gritar à meia-noite, é pegar o ônibus errado e parar só no final, é saber rir dos próprios escorregões, é comer uma maça no almoço e comer frango frito no café. É andar e andar. É esperar o metrô depois da linha amarela só pra sentir o vendo mais forte quando ele chegar. É cair no chão de rir do Jim Carrey no o mentiroso e chorar com ele no show de thrumam, é ler Nelson Rodrigues antes de dormir e ler Charles Dickens depois de acordar, é calçar um tênis vermelho e outro amarelo. É se divertir olhando para os carros do décimo andar, é chorar na propagando de filtro solar, é… tirar a camisa no meio da rua só pra que vejam a sua tatuagem nova, é desligar o telefone no final de semana, e é desligar o telefone no meio da semana, é cantar no banho, depois do banho, antes do banho… é cochilar a tarde inteira no sofá e sair a noite com as costas doendo. É tomar remédio pra dor de cabeça pra ver se passa a dor nas costas. É andar de cabeça pra baixo às vezes… é “a grande beleza de qualquer coisa”, é ir pra um parque de diversão e ficar na porta do banheiro só pra ver as pessoas entrarem correndo, é gostar de ouvir os passos da mamãe pelo corredor antes de ela abrir a porta e chegar em casa. É pular e pular… é a vontade de chorar e sorrir ao mesmo tempo. É comprar um sorvete sem fazer os cálculos da passagem de volta, é não voltar… é ir… é ficar… é comprar uma bicicleta aos quarenta, comprar um terno aos doze, é vender a casa aos sessenta, é dançar no banheiro de um teatro enquanto o concerto não acaba, é se apaixonar por borboletas, é ter uma mesa de sinuca na sala de jantar, ter um fliperama no quarto, é conseguir ouvir o barulho da água da chuva batendo no telhado, é nadar pelado na chuva, é tomar cerveja no trabalho, é trabalhar na companhia de cerveja, é correr pra pegar o ônibus, é gastar dinheiro com o táxi… é tudo, é nada… é de repente parar e olhar pra cima… é a busca sem fim, é o fim da linha. É hoje, é agora… é o câncer, é a aids. É o papa e é Hitler. É o vendedor de selos, é o fim porque é tudo começo.
Sim, eu estou aqui. Sentado, no escuro. Guardo uma sensação…
As pessoas já estão dormindo lá fora, olhem pela janela, está tudo apagado. Se não estivesse tão tarde eu gritaria, sabia? É, soltaria a minha voz.
Não se assustem, apenas continuem. Façam. Isso. É bonito vê-los assim. Me dá força, me dá coragem. Todo o resto não passa de mentira pra mim, as pessoas falando, se cumprimentando. Está me dando raiva. Eu acabo cumprimentando também, está me dando raiva. Eles são infelizes mesmo, não têm nada a dizer realmente. Acho que têm muito a escutar. Vocês já gritaram, quem sabe alguém não ouviu? Eu ainda consigo ouvir. Um dia eu… … eu queria gritar se pudesse, lembra? Não se preocupem com eles, todos são ótimos com as palavras grandes também, mas não passam de palavras. São vocês que me causa vida. Ah! Eu queria que vocês entendessem esse turbilhão. É tudo tão perfeito no mundo dos meus sonhos, quando eu consigo dormir as velhas católicas estão todas mortas, meu pai me ama e faz parte do meu futuro, vocês são felizes, eu sou feliz. E falando de felicidade, quando eu estou dormindo, não existe diploma, não existe casamento, não existe escolas boas, lugares ruins, datas, prazos, validades, nós somos felizes sem essa merda de felicidade que todo mundo diz. Droga! Pra dizer a verdade acho até que vocês são os únicos que podem entender esse turbilhão. Está tudo tão engasgado na minha garganta. Quer sair, mas já é tarde. Tenho a impressão que vou ficar preso nessa cadeira e que ainda terei netos um dia. Olhar pra frente me dá muito medo. No final de tudo eu tenho a estranha sensação que são as palavras grandes somente palavras que ditam a minha realidade, e que eu sou só mais um que não tem força pra ser visto. São eles que falam e eu que escuto, mas vocês estão salvos, entraram na terra prometida. Tentem não estragar tudo. É só olhar com calma para as coisas que não têm calma, cuidem um do outro por mim. Por mim. Guardem sempre essa força por mim. É, eu sei que vou bater na sua porta em algum momento de fraqueza e vocês não estarão mais, não esperem por mim. Eu não tenho força pra me desprender dessa cadeira. Mas também, por favor, não se esqueçam de causar vida. Pra isso é só vocês gritarem. Eu vou ficar aqui tentando levantar… levantar… morrendo… e levantar… ouvindo… engasgado…
Afetuosamente, apenas um.
- Você tem que entender que eu não estou aqui atoa. Deus não brinca assim com os homens.
- Pára com isso, você está parecendo um louco, sabia?
- Sim! É exatamente isso. Um louco. Entregue ao tempo e ao vento. Os meus olhos passam a maior parte do dia abertos, mas isso não quer dizer que eu não estou sonhando.
- Devia parar com isso então, ou pelo menos perceber de fato a realidade. Você sabia que sua vida está passando enquanto você se perde em detalhes?
- Vida! me diga o que é vida.
- …
- É só dizer… grite se puder!
- Você não está ouvindo nada do que eu estou dizendo né?
- O que você está dizendo está longe de você, até eu posso ver!
- Você não sabe o que está falando.
- São apenas palavras perdidas. Não faça isso com você, nem comigo. Não se perca por coisas que não existem. Abra esses olhos de verdade. Olha pra mim, eu estou aqui.
- Eu estou vendo você aí.
…
…
- Então quantos dedos tem aqui?
- Não disse? Você está louco, abaixa essa mão. As pessoas…
- Estão passando…
- E olhando.
- Deixe-as ver.
- Ver que você é um louco?
- Ver que eu estou vivo.
- Ok, ok! Tudo bem… Mas você vai ficar bem, né?
- Eu sei o que eu estava sentindo a trinta minutos atrás e sei o que estou sentindo agora. E são coisas assim que me deixam sentir meu coração, e me deixam gritar que eu estou vivo. – Eu estou vivo!
-Pára com isso. Aff... Você não tem jeito. Mas é que... Mas é que existem coisas que não posso explicar. Sei lá… talvez eu apenas não consiga explicar… me promete que vai ficar bem.
- Eu prometo que vou continuar aqui.
- Não faça isso. Assim fica muito difícil pra mim.
- O problema é seu, eu nunca disse que seria fácil. Nem que seria difícil, ou que esse conceito exista entre os homens.
- Mas ele existe, e você está dificultando as coisas pra mim.
- Não posso fazer nada a esse respeito. Posso dizer que vou continuar aqui e o dia que eu parar de sonhar eu vou ser mais triste, e o mundo vai ser mais frio.
- Não exagere.
- Sim. Mais frio.. o mundo fica mais frio com cada homem que se acostuma. E eu não quero me acostumar.
Talvez fugir seja uma forma. Mas eu não quero fugir. Eu quero doer. É bom doer também. Me dá orgulho. É “ser eternamente feliz e profunda mente triste” lembra? É assim que eu sou, com todo o meu dilema e com meu horror. Não quero me afastar do meu drama. Quero chorar com ele.
- A gente vai se ver?
- Que essa noite seja eterna até que eu vá embora. Levo comigo você, nos meus sonhos.
- Isso quer dizer o que?
- Que eu te amo. Mas não importa. Não importa mais. Apenas eu continuarei sabendo disso. E serei feliz quando o choro lavar meu rosto.
E quando as feridas cicatrizarem eu talvez ainda consiga senti-las.
- É uma escolha que eu não consigo entender, mas é a sua vida, você faz o que quiser dela.
- Exato, você mente pra você mesma e eu choro por escolha.
- Eu não minto pra mim!
- Mente somente pra você.
- De novo, você não sabe o que está falando.
- Sei. Você faz as coisas ficarem mais fáceis. Me disse a um segundo atrás que acredita nesses conceitos. E é mais fácil se esconder atrás de mentiras tão bem ditas que até te enganam às vezes, mas nem adianta fingir, você também tem um coração, que bate, e que grita, e que consegue fazer tanto barulho que te faz abrir os olhos e ver que está ficando esgotada de mentiras bem contadas. E por isso que você chora nas horas mais inusitadas. As vezes ele se esguela tanto que nem te dá tempo pra chegar no teu travesseiro.
- Não diga isso! Por favor.
- Eu prometo que vou continuar com a minha passionalidade. E que vou continuar sendo intenso, e se eu me deixar esfriar por algum minuto que seja apenas, é triste não somente pra mim. E eu espero que você consiga perceber que o que você está fazendo é triste não somente pra você, e que o mundo não precisa da sua frieza, que eu não preciso da sua frieza. Mas enfim, esperança é sempre bom ter.
- É assim então? E pronto?
- Acho que sim, né?
- Você vai agora? Fica… mais um pouco.
- Tá bom.
…
…
- Quer ver um filme, fazer alguma coisa?
- É um filme é uma boa ideia.
- Eu estou com um ótimo lá em casa, me esqueci o nome, mas sei que é ótimo.
- Perfeito.
- Me espere aqui, volto em uns vinte minutos.
- Te espero…
Te espero até a noite virar dia. E o dia virar noite. Mil e uma vezes se for preciso. Aaaaah! Deus, eu sei que o senhor não brinca assim com os homens. Eu sei!
Sou eu que estarei parado, né? Não posso pensar nisso! Não quero que seja assim. Mas se andar significa matar tudo, eu não ando. Não mato. Eu não gosto muito dessa dor, era mentira. Mas ela tem só um jeito de ir embora. Prefiro nem pesar sobre outras soluções. Me desculpe se eu estou atrapalhando com seu planos. Eu não quero que ninguém mais se afete, mas eu não tenho escolha! Me desculpe.
Me jogarei em queda livre pelo simples prazer dos ventos.
Por hora não consigo ver mais nada além de chão.
Sigo apagando livros inteiros com um sorriso.
Desprezando meu passado, subestimando meu futuro.
Simplesmente voltar a viajar sem rumo.
Não sei dizer como cheguei até aqui.
Mas que a poeira se levante escondendo símbolos.
E que eu consiga dormir em travesseiros limpos.
Eu estou correndo. Eu olho pra trás e vejo tudo que não quero mais. Eu olho pra frente e vejo o infinito. O céu e a curva do mundo. Eu estou correndo. E correndo. Eu olho pra trás e vejo o infinito. O céu e a curva do mundo. Eu olho pra frente e vejo tudo que não quero mais.
Amores são sempre brutos. E “amores serão sempre amáveis”. Eu tenho dois medos, um é de barata. Parece bobo, mas as baratas me fazem correr.
Um dia eu queria me sentar do outro lado do muro. Era só um muro. Subi. Olhei do alto. Olhei pro alto. Não vi nada que eu me importasse. Não senti nada que me marcasse. Desci. Pisei em cacos de gente. Talvez vidro, não me lembro. Chorei e não podia mais correr, não naquele hora. O sangue estava quente. Sentei. Descansei do outro lado do muro. Olhei pra frente e lá estava uma casa abandonada, e só vi cacos de gente. Talvez tijolos, talvez móveis velhos. Não senti nada que possa me recordar. Encostei minha cabeça na parede. Sonhei que tinha dormido, e que tinha sonhando com gente. Talvez pessoas.
Pra merda com o sangue. Pra merda com os cacos. Pra merda com o muro. Agora eu só corro. Do meu medo, talvez baratas, talvez…
Às vezes você começa a sonhar e vai sonhando, sonhando... Aí tem um momento que você confundi os porquês, até que percebe que nunca quis realmente o que estava sonhando, queria mesmo era sonhar.
Gente que acorda cedo dorme de cortinas abertas, e é aí que vem o pior momento: Um raio de sol, bem forte, na sua cama. daí você abre os olhos, nota que estava sonhando e vê que está atrasado pra começar o dia. E é no entardecer que você percebe que o seu sonho de antigamente é a sua vida de agora, mesmo que seja só em alguns detalhes. E eu espero, caro leitor, que você pare de perder a hora e sempre perca a hora quando puder