segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

E de recomeços

Talvez porque o dia tenha se amanhecido estranho ou porque ele não se continha mais nas suas grandes expectativas, não havia mais uma possibilidade de equilíbrio, não havia mais a chance de conciliação entre o que lhe ocorrera durante a noite e o que se passara por toda sua vida até então. E nessas manhãs que sem mais nem menos se acorda mudado, não há choro que cure, não há desespero suficiente. Tem que mesmo assim levantar-se, tomar o leite e sair ao trabalho. É preciso ter o trabalho. Pois depois de um tempo grande qualquer, o que se faz é continuar em um movimento que não tem mais força para cessar. Não depende mais se se é um novo homem. E continuar deitado é o único modo de se render. Há que se provar a coragem.
E de recomeços, o que lhe resta é recomeçar o que já acabado. O que lhe resta é incorrer no mesmo erro. E de recomeços, o que lhe resta é morrer tentando.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Urgência absoluta

Não se preocupe tanto, não se desgaste por mim...
Eu sei que as vezes se tem a urgência absoluta
e mesmo assim eu te peço, não se desgaste tanto...
Nem sempre se tem tempo pra resolver as coisas,
é bom deixar tudo se consumindo também.
Ver o fim disso que parece estar sempre no meio.
ou tudo se explode ao tudo se clareia, tanto faz...
É essa urgência.
É essa urgência.
Que mantêm o peito amarrado, as costas presas.
é estranho pensar que a gente se prende ao tentar emergir.
Tudo se entulha e não entendo mais nada.
Se afunda se houver emergência. Se houver emergência.
Me desculpe o trocadilho, assim nesse momento encruzilhada.
O tempo passa e meu humor se torna cada vez mais ácido.
Por ser mais ácido, com o tempo, ele se torna mais rápido
é que meu humor, é... mais rápido...

mais rápido, mais rápido, mais rápido!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

As voltas que o mundo dá

Ilusão é fácil de se ter. Um dia o sujeito acorda e descobre que nada está no lugar que ele imagina estar... ele percebe então que na prateleira do quarto, onde antes nada se sustentava, havia um clarão de coisas brilhantes, ele percebe que aquilo que, logo cedo, aquilo que por todas as antigas manhãs, brilhava lá fora, estava reluzindo bem encima da sua cabeça, que aquela velha prateleira do seu quarto, aquela mesmo que nunca servira nem sequer para guardar lembranças pequenas ou lembranças bobas que fossem, agora era o grande porta tesouros. Iludir-se é acreditar que pode ou é acreditar que não pode?

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mais um adeus [quase uma oração]

Ele partiu de novo, indo não sei aonde, encontrar não sei quem. Depois de tantas despedidas, vejo que não importa pra onde ele está indo, importa simplesmente o de onde está saindo. Não há lugares mais importantes que outros, lugares melhores ou mais bonitos. Há apenas pessoas vivendo. O sentido não está na nas certezas.
Ele simplesmente partiu deixando pra trás construções inacabadas; um vazio profuuundo... A sensação de angustia forte no peito, a velha sensação.
Todos nós sabemos que não fará diferença ele ter partido. As dores não moram em lugares como as pessoas. As dores moram nas pessoas. E se eu vou, ela, a dor, vai comigo. Hoje mais cedo, eu estava pensando sobre como ele se sentia. Por que sempre está indo embora. Vejo, que há certas sensações que envelhecem com a gente. Sensações que maturam com o nosso tempo. Percebi que não existem porquês, não existe resposta. A partida não quer dizer nada, é somente mais um adeus. É sensação também.
Não acho que dores devam ser resolvidas. Não se resolve tudo. Não se resolve tudo. Apenas é necessário que tenhamos verdadeiramente a coragem de contemplar, o poder único de receber sem pretensão ou distinção. Talvez seja essa a única dádiva real.


Peço apenas que ele não parta mais, pois as pessoas que ele encontrará pelo caminho são as mesmas das quais ele se despediu.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fome !

Não fale da fome se você não a tiver tocado. Se por um acaso conseguir senti-la, entregue-se a ela, se deixei tocar por ela, entenda qual é o peso da fome, qual a textura da fome, qual é o cheiro. E não pense que tocar seja o suficiente para senti-la entranhada nas vísceras. Sentir a fome é mais que isso. Diz respeito ao espírito; Andar por um túnel gotejando água gelada. È invisível, é espesso ao mesmo tempo; é insolúvel, é nojento. Não fale sobre a fome se um dia não tiver sido um miserável faminto.

Se eu fui um? me pergunte quem quiser...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pequenos desencantos

Acordei como se acorda todos os dias, cheio de remela nos olhos, com a cara toda marcada. Eram duas horas da tarde. Meu café da manhã? Pizza de ontem com coca sem gás, comi sem sequer esquentar no microondas. Tem dia que a gente não pensa em comer uma fruta logo quando acorda.
[Levanta se arruma e corre]
E se deitado na cama eu estava, lá eu fiquei até as quatro horas da tarde. Nesse meio tempo ainda assisti a um filme velho e ruim na TV. Quando, por algum motivo eu não esteja bem, ligo a televisão na esperança de estar passando um ótimo filme, é que eu sou suscetível, sempre me emociono com histórias bonitas, e sempre espero ver uma assim passando desprevenida na TV.
[Levanta se arruma e corre]
Acho que eu e sou um idiota qualquer, sem expectativa, sem presença de espírito. Gosto das histórias dos suicidas e dos deprimidos, mas não me deprimo com frequência, fico feliz a cada vez que me sinto deprimido e a depressão passa.
[Levanta se arruma e corre]
Quando eu me levantei, podia ter tomado um banho, escovado os dentes, ou ao menos ter dado boa tarde ao porteiro do prédio, no entanto, não escovei os dentes, não dei boa tarde a ninguém, e assim como quem tem algo a perder, calcei os sapatos com uma meia de solado marcado, e saí de casa pra mais um dia de aula. Troca de roupa, aquece, treina, treina, trabalha, potência vocal, potência vocal, senta em círculo, e sussurra pra colega do lado “eu me sinto um poço de energia eternamente enclausurada”. Na volta pra casa essa sensação de dor no peito, e vontade de arruma a vida, levantar de novo e sair correndo em disparada…
Talvez o melhor seria eu parar por aqui e dizer apenas que tive um dia triste, sem nenhuma poesia.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Areia

Me entreguei de peito aberto ao tranco. Ver se eu conseguia sobreviver ao impacto. Debrucei do décimo quinto andar do prédio onde morava, fechei os olhos e por um segundo lembrei, lembrei de tudo que havia de relevante pra ser lembrado. Dias cinzentos e chuvosa de uma dessas férias de inverno, o primeiro beijo na biblioteca da escola, a primeira paixão na coxia do teatro, o primeiro tombo de bicicleta… depois um misto de sensações no peito, primeiro um nó, depois um alívio, ainda uma dor, depois o desalento. A solidão do último instante é única solidão real. E de lá do décimo quinto, sem carta de despedida, sem angustia, sem ressaca nem ressentimento, apenas pra ver se conseguia sobreviver ao impacto, em um dia desses de sol forte, eu pulei.