quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mais um adeus [quase uma oração]

Ele partiu de novo, indo não sei aonde, encontrar não sei quem. Depois de tantas despedidas, vejo que não importa pra onde ele está indo, importa simplesmente o de onde está saindo. Não há lugares mais importantes que outros, lugares melhores ou mais bonitos. Há apenas pessoas vivendo. O sentido não está na nas certezas.
Ele simplesmente partiu deixando pra trás construções inacabadas; um vazio profuuundo... A sensação de angustia forte no peito, a velha sensação.
Todos nós sabemos que não fará diferença ele ter partido. As dores não moram em lugares como as pessoas. As dores moram nas pessoas. E se eu vou, ela, a dor, vai comigo. Hoje mais cedo, eu estava pensando sobre como ele se sentia. Por que sempre está indo embora. Vejo, que há certas sensações que envelhecem com a gente. Sensações que maturam com o nosso tempo. Percebi que não existem porquês, não existe resposta. A partida não quer dizer nada, é somente mais um adeus. É sensação também.
Não acho que dores devam ser resolvidas. Não se resolve tudo. Não se resolve tudo. Apenas é necessário que tenhamos verdadeiramente a coragem de contemplar, o poder único de receber sem pretensão ou distinção. Talvez seja essa a única dádiva real.


Peço apenas que ele não parta mais, pois as pessoas que ele encontrará pelo caminho são as mesmas das quais ele se despediu.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fome !

Não fale da fome se você não a tiver tocado. Se por um acaso conseguir senti-la, entregue-se a ela, se deixei tocar por ela, entenda qual é o peso da fome, qual a textura da fome, qual é o cheiro. E não pense que tocar seja o suficiente para senti-la entranhada nas vísceras. Sentir a fome é mais que isso. Diz respeito ao espírito; Andar por um túnel gotejando água gelada. È invisível, é espesso ao mesmo tempo; é insolúvel, é nojento. Não fale sobre a fome se um dia não tiver sido um miserável faminto.

Se eu fui um? me pergunte quem quiser...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Pequenos desencantos

Acordei como se acorda todos os dias, cheio de remela nos olhos, com a cara toda marcada. Eram duas horas da tarde. Meu café da manhã? Pizza de ontem com coca sem gás, comi sem sequer esquentar no microondas. Tem dia que a gente não pensa em comer uma fruta logo quando acorda.
[Levanta se arruma e corre]
E se deitado na cama eu estava, lá eu fiquei até as quatro horas da tarde. Nesse meio tempo ainda assisti a um filme velho e ruim na TV. Quando, por algum motivo eu não esteja bem, ligo a televisão na esperança de estar passando um ótimo filme, é que eu sou suscetível, sempre me emociono com histórias bonitas, e sempre espero ver uma assim passando desprevenida na TV.
[Levanta se arruma e corre]
Acho que eu e sou um idiota qualquer, sem expectativa, sem presença de espírito. Gosto das histórias dos suicidas e dos deprimidos, mas não me deprimo com frequência, fico feliz a cada vez que me sinto deprimido e a depressão passa.
[Levanta se arruma e corre]
Quando eu me levantei, podia ter tomado um banho, escovado os dentes, ou ao menos ter dado boa tarde ao porteiro do prédio, no entanto, não escovei os dentes, não dei boa tarde a ninguém, e assim como quem tem algo a perder, calcei os sapatos com uma meia de solado marcado, e saí de casa pra mais um dia de aula. Troca de roupa, aquece, treina, treina, trabalha, potência vocal, potência vocal, senta em círculo, e sussurra pra colega do lado “eu me sinto um poço de energia eternamente enclausurada”. Na volta pra casa essa sensação de dor no peito, e vontade de arruma a vida, levantar de novo e sair correndo em disparada…
Talvez o melhor seria eu parar por aqui e dizer apenas que tive um dia triste, sem nenhuma poesia.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Areia

Me entreguei de peito aberto ao tranco. Ver se eu conseguia sobreviver ao impacto. Debrucei do décimo quinto andar do prédio onde morava, fechei os olhos e por um segundo lembrei, lembrei de tudo que havia de relevante pra ser lembrado. Dias cinzentos e chuvosa de uma dessas férias de inverno, o primeiro beijo na biblioteca da escola, a primeira paixão na coxia do teatro, o primeiro tombo de bicicleta… depois um misto de sensações no peito, primeiro um nó, depois um alívio, ainda uma dor, depois o desalento. A solidão do último instante é única solidão real. E de lá do décimo quinto, sem carta de despedida, sem angustia, sem ressaca nem ressentimento, apenas pra ver se conseguia sobreviver ao impacto, em um dia desses de sol forte, eu pulei.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Retrato em retalhos

O tempo todo como era óbvio o contentamento descontente;
Como isso era claro, óbvio;
Como ouvidos poderiam ser violados com bobos segredos lindo e indecentes.

Como eu poderia imaginar, na minha tola experiência que alguém assim, tão perfeito, tão cheio de forma e graça poderia calçar com tanta precisão o sapato perdido na escadaria? Não é tolice pensar que você pode gostar de alguém e ser retribuído?

O primeiro amor passou... o segundo amor passou... o amor simplesmente passou e você só me deu o que era confortável dar...



Drummond de Andrade
Paulo Rocha
Fabiano Rabelo

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Das paixões proibidas

Essa segurança precoce, a suposta maturidade, nada, não faz a menor diferença. É quase um problema de nascença, neste estado o garoto não pode mais ser criança, não se entende mais como criança, e nem tem credibilidade suficiente, mesmo que se apaixone verdadeiramente.
E criança como tal, nada se pôde fazer. Não fez a menor diferença a grande maturidade espiritual. A mulher estava lá, linda, simpática e quente a sua frente, talvez se se conhecessem em oito, dez anos, essa troca de olhares que em um primeiro momento foi de extrema sensualidade, não tivesse ficado apenas na atenção e bom modo para uma relação entre criança e adulto.
É uma situação quase absurda, onde os pensamentos e sensações tem que se conter por regras que não fazem o menor sentido. Por quê não poderia uma mulher de trinta e dois anos se entregar ou se mostrar atraída por um garoto de doze? Mesmo quando já está claro que o tal garoto em questão não consiga conter a emergente sensação de forte atração pela tal mulher mais velha? Independente do discernimento das pessoas ou das leis que nos regem, muito mais teria de ser levado em questão os corações que batem e batem. Os apaixonados deveriam ter o direito absoluto do prazer. Lindo seria se todos os Montecchios se apaixonassem pelos Capuletos, e assim os dois explodissem em gozos fartos e desculpados. E os finais trágicos deveriam ser menos desejados, menos divulgados. Pois assim talvez as paixões fossem menos proibidas.
Mas não… não e apenas não… e deste encontro de almas que andavam soltas ao vento, almas que continuarão em uma jornada de procura, nada mais se obteve, senão uma relação de bom modo para uma criança e um adulto.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Nem documento

silêncio!
silencio?
Sem lenço não!
Não, sem lenço