quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

(Des)fé

No pulsar incessante do grande relógio dos dias, onde não há ponteiros girando, há apenas as pontas esquecidas, perdidas, fedidas. Não há mais o que se fazer por aqui [nem por lá].

Isso é sobre absurdo de gente.

Porque se parar pra gritar, o grito vai consumir, definhar. E nas cinzas nada mais pode-se fazer, nada por ninguém, nada. Depois de todas estas estações gélidas, petrificantes.
Das cinzas um grito poeiriu se vai soltar, mas nada além de levantar a alergia dos homens conseguirá, nada além de tornozelos torcidos, de tempo perdido. No máximo gritos das cinzas.. poderemos chorar feito os inconformados, chorar eternamente, mas se resolvermos não chorar, nada além se fará.

Deveria ser simples como esmagar uma pulga que nos arde. Mas não, sempre não. Tudo acontece ao nosso redor, a nosso respeito, com muito despeito de desrespeito, e nada sempre, nada... nos becos sem saída tem sempre a opção de tentar pular os muros. paredes assustadoramente altas [impuláveis]. parado. Nem andamos pra onde esperam que vamos, nem voltamos, porque de caminhos percorridos já basta. De gente palidificante percorrida já basta. Acho que o melhor é seguir o conselho das mães. Tomar pra si a culpa dos erros do mundo, e comunicar com Deus pra ver se resolve.
Mesmo sem acreditar num centelho de força divina sobre os infernos humanos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

pilastra de hoje


Tem dia que a gente acorda com uma sensação ruim
o corpo cansado e
a mente estafada.
Sentindo tudo meio
à flor da pele, sabe?
E
quan
do
bam
bo
é difícil até mesmo
levantar daqui agora.
[Constância poética.]
Mas se acordarmos
bem, e simplesmente
sentirmos os pés no
Chão. O insustentável.
Criar no chão a nossa
força, sabendo (se)
no chão, enraizar.
É entrar em contato
com o que Deus fez
é ser um pouco Deus
A nossa própria pilastra.
A nossa base de profundazas, a pele viva entranhada, o dia amanhecente.
Somos como os icebergs, é no que está abaixo de nos que nos equilibramos.

[A vida humana é como a procura de algo já encontrado, é no fim de tudo, uma eterna perda de tempo]

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O meu pedaço de mundo

Cresci! De uma hora pra outra... Todo mundo se assustou.
Sabe o que eu acho? Que depois dos quarenta, ninguém mais acredita.

Matei a mulher que existia em mim e cresci mulher aos gritos. Gritei até perder a razão, gritei por uma vida inteira de silêncios desnecessários, assim, na hora errada, do jeito errado, no buteco da esquina.
A poeira levantada e eu respirando profundo, que se me engasgo, será por força.
O que dirá Manuel, o barista, à mim sequer se anuncia.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

[Um buraco no espelho]

Algumas coisas são mais intensas que parecem. Um beijo roubado. Algumas coisinhas…
Um olhar roubado.

Estou descobrindo muito, assim sem saber. Sem lente de aumento.

De repente blues mexicano. De repente seios despudorados.

Sabe de uma coisa?


- Eu perdi o medo de te dizer – dizendo –
Não estou aqui atrás de belezas bonitas. Mas estou atrás de belezas, você por um acaso pode me mostrar algum pedaço de mundo?

- Eu não te entendo, e não perdi medo nenhum – respondendo – Eu não te entendo, e não perdi medo nenhum

domingo, 25 de janeiro de 2009

Anônimo

Dos sexos lidos, dos sexos vistos
Apenas alguns são mais do que são,
de três dias atrás a mil e um noites em vão.

sobre sexos depravados, há sempre algum perfume inexplorado

dos sexos dos anjos, sacro-santos, abençoai-vos, mas não.
dos vírgem-sexistas, uma lástima perdida numa só vastidão.

Aqui a pobre rima, a pobre poesia

[Aqui, as delícias de alguém que mente algumas verdades fantasiadas. (Que cria e foda-me!) Porque meias verdades de uma alma, mesmo que criadora, mentiras são.
Possibilita-me um deleite intelecto-carnal. E infelizmente como para mim, hoje sim amanhã talvez, intelecto ainda é pouco frente a sublime possibilidade do carnal(-fantasioso)]


De puros reflexos horror e amor.
Por instinto prazer e rejeição.

De tudo um pouco teríamos, se fossem simples retratos de uma profunda solidão.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Surdos então

Quando eu te fizer uma pergunta, responda!
Que de pedaços já estamos cheios. Acabados
por motivos (des)conhecidos por coincidências.

Qual é a imoralidade do grito seco, empurrado?
Se se arrumar e me chamar eu vou, é só falar
alto e em bom tom, ou apenas alto,
que se dane os tons.

Escutemo-nos pela carne se os mundos convergirem.
Sorria abertamente mesmo fedendo cigarros velhos
ou então
seja simplesmente sincero ao que te perguntam

[Os silêncios dos nossos dedos mortificam uma alma mentirosa, mas viva]

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O Recomeço de hoje

Ivan acordava paranóico todos os dias. Mas nesse dia, tudo estava um pouco diferente, ele sentou na beira da cama, pensou, pensou, pensou, até que percebeu que paranóia nada mais era que paranóia da sua cabeça. É engraçado como se percebe as coisas um tempão depois que tudo já está dando errado. E quase não tinha mais jeito, tudo já estava fora do lugar. O único jeito agora era dar um jeito em tudo que era coisa, porque o que é pessoa não dá pra sair dando jeito por aí.
A primeira coisa que ele fez foi abrir as janelas de casa para voltar a ver o sol e a lua, já fazia cinco anos que tudo se parecia com breu. A segunda coisa a fazer era jogar no lixo tudo que era lixo, porque o lugar de lixo é no lixo! A terceira coisa que ele tinha que fazer era lavar as mãos e os pés (lavar as mão e os pés é metáfora de quem lava a alma).
Depois, quando tudo que ele tinha que fazer ele fez, começou a fazer coisas que não tinha que fazer, mas era bom que fizesse. E a primeira dessas coisas foi plantar girassois no jardim, que há anos não era nada além de terra batida. Os girassois são as melhores flores do mundo. Elas são as únicas que se fazem iluminar, mesmo quando tudo é neblina. Depois dos girassois plantados, lindos e crescendo, ele foi arrumar o quarto (arrumar o quarto é metáfora de quem arruma a vida) deixou tudo que era coisa em seu lugar de novo.

Recomeço.
Quanto as pessoas, não tinha muito o que fazer além de esperar, não que ele deveria ficar sentado na beira da cama esperando, esperando, esperando. Ele devia fazer sim alguma coisa, mas não tão diretamente assim. Eu digo esperar, porque tudo precisa de tempo pra se harmonizar. Mas nada nesse mundo além da natureza se harmoniza sozinho. E fazer alguma coisa quanto a pessoas, não quer dizer que se deve construir prédios ou realizar um mundo de metas. É sempre melhor começar com o que é menorzinho mesmo.
Esperar era duro. E quando temos que esperar por alguma coisa que só aconteça com o tempo, temos a impressão que nada está acontecendo, enquanto na verdade está é lentinho, a ponto de parecer que não está andando…
Decidido a esperar do jeito certo, fazendo alguma coisa, Ivan deixou de lado tudo aquilo que não existe mas incomoda profundamente. Dito isto, saiu a procura de coisas bem simples e menorzinhas, (que aparentemente também não existem, mas todo mundo sente que estão lá) como amor de mãe, amizade de amigo e olhar sincero de criança. De hoje em diante essas coisas todas farão bem a Ivan, sem que ele se preocupe se deverá ou não retribuir (para que assim ele se sentisse a vontade pra retribuir sem obrigação nenhuma).
E no fim desse dia, depois que ele voltou pra casa, com um pouquinho de amor de mãe, amizade de amigo e olhar sincero de criança, tudo, em pequeninos detalhes, depois de muitos anos estava com uma aparência muito diferente do de costume. O mundo respirava melhor no final do dia. E assim, com essa sensação boa Ivan foi dormir.


[Como essa é uma crónica de recomeço, acho prudente terminar assim, parecendo que tem muito mais coisa pela frente]