quinta-feira, 5 de maio de 2011

Faz passar o tempo

Não há mais a mesma facilidade. É impressionante como gente se imbeciliza com o tempo. Cada vez mais torna-se ignorante, sobre a própria existência. Me aventuro a dizer que é por isso que fumamos. Fumamos com os pulmões, fumamos com os braços. Fumamos pra consumir nosso oxigênio com algo menos importante que simples devaneios.

Nós, os homens, somos como as mulas, que apenas vivem. Como os camelos. Apenas vivemos. Estamos inertes numa eterna dança de afogar e boiar, afogar e boiar, assim _-_-_-_-_-_.

Um dia quem sabe conseguiremos olhar isso tudo como quem espia pela fechadura do próprio quarto. Essa prisão não mais será parte de nós.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sozinho no quarto

De tempos em tempos eu me calo pra ver passar a tempestade. Pra ver passar a tempestade. Instala-se, assim, um silêncio absurdo.
no entanto,
ouve-se de longe o barulho marcado do relógio.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Para os que acreditam em fantasmas aqui vai o prelúdio de um sonho

Prólogo de "Delírio em Terra Quente"

Dizem que quando se morre, o primeiro minuto é o mais importante. Depois vem todos os outros, todos do mesmo tamanho... o primeiro minuto é maior que é pra ter tempo de entender que está morto. É que as pessoas falam palavras grandes antes de morrer, aí o tempo se confunde, e pra haver compreensão acaba se dilatando. Logo antes de morrer a pessoa se torna lúcida, se mete a falar coisas que, descoladas, quase não fazem sentido. As vezes são frases sérias, as vezes são banais. o interessante é que todos param, todos dão ouvidos as últimas palavras... "Saudade é o inferno dos que perderam, é a dor dos que ficaram para trás, é o gosto de morte na boca dos que continuam..."
(citação entre aspas: Pablo Neruda, trecho retirado do poema "Saudade")

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nada espera por mim!

Escalei com todos os ossos do meu corpo, empilhei pedaço por pedaço, abri espaços longos nas minhas articulações, me equilibrei, meio desequilibrado, na ponta dos meus pés. Ainda assim não consegui ver por cima do muro. Estou pendurado na incerteza da ignorância. Sei que depois do muro tem um jardim de grama verde e extensa, com os mais variados tipos de bromélias, com rosas brancas; sei que depois do muro tem uma árvore forte, com flores azuis; que depois do jardim tem uma casa no estilo colonial, com paredes brancas, pilastra e janelas grandes; que dentro dessa casa tem móveis antigos, cômodas da moda de outro tempo; que dentro dessa casa tem sofás com o estofado cheiroso; que lá a beleza se faz na rotina da existência; sei que há cupins nos armários, mas que isso é aceitável para que mesmo com toda serenidade haja algum pranto fazendo real a felicidade que existe lá. Tudo isso espera por mim. É preciso esperar que chuva chegue bem forte para que o muro se derrube sobre o céu, se estilhasse em pequeninas partículas voando para o espaço. Para que então eu entre, pisando na terra com os pés descalços, sentindo o poder de me sujar de lama. Eu poderia pular agora mesmo, e não só tentar ver o que me espera pra eu descansar, o esforço seria grande, mas a dor seria recompensada. Contudo, pular não é alternativa frutífera. Pois depois do muro há apenas um abismo sem fim.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Carta para um suicida

Eu poderia continuar por anos. Eu acordaria de novo, todos os dias. Eu dormiria de novo. É assim que se faz quando se está andando. O que espero de vocês não é compreensão, espero apenas que vocês continuem.

Essa noite, antes de dormir eu fiquei sentindo o meu coração bater. Primeiro do lado esquerdo do peito, depois no ombro, depois na barriga, no braço, na perna, nos pés. Meu coração bate no meu corpo inteiro, o tempo todo.


E se eu continuasse, o que faria com esse pulso silencioso que me agride o corpo?

E se eu continuasse, sempre seria isso, eu ia acordar de novo, eu iria dormir de novo. O pulso surdo e mais nada.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Para quatro amigos solitários

Eu não gosto de relógios barulhentos. Tenho sempre a impressão de que eles, os relógios barulhentos, se deliciam em nos dizer que estão passando as horas. Só podemos percebê-los durante a madrugada.

"Tac", um minuto... "Tac" outro.

São como um compasso que ditam as batidas surdas do peitoafeto. Nos tornamos seres atentos as miudezas sonoras. Há uma certa beleza nessa solidão acompanhada. Com um pouco de vinho é a velha e bem conhecida grande Beleza de qualquer coisa.

Sentados no sofá vermelho, esperando a vida se tornar menos etílica, escutando as batidas surdas uns dos outros. Parados. As tristezas cotidianas, os relógios barulhentos, "tac", "tac" é assim que ocupamos o nosso silêncio.
Uma boa noite, um bom dia,
e caso eu não os veja mais; uma boa vida!

domingo, 11 de julho de 2010

Diálogo

Ele: Sim, eu já estou indo. O instituto médio legal é perto daqui. Preciso só de alguns minutos pra descansar. É que eu andei muito hoje, estou sentindo minhas pernas bambas.

Eu: …

Ele: Parece que algo súbito aconteceu, não sei bem se foi enfarto ou atropelamento. Eu não consigo pensar sobre isso direito. Acho que na verdade estou esperando pra pensar sobre isso depois. Se eu deixar pra pensar depois posso resolver melhor o que tem de prático pra fazer por agora.

Eu: …

Ele: Não havia ninguém lá, ninguém conhecido. Justo hoje. Eu sei que andar rodeado não significa necessariamente não estar só. Mas é que não tinha ninguém lá. Me dá um dos seus cigarros?

Eu: …

Ele: Não, eu não fumo.