sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Nada espera por mim!

Escalei com todos os ossos do meu corpo, empilhei pedaço por pedaço, abri espaços longos nas minhas articulações, me equilibrei, meio desequilibrado, na ponta dos meus pés. Ainda assim não consegui ver por cima do muro. Estou pendurado na incerteza da ignorância. Sei que depois do muro tem um jardim de grama verde e extensa, com os mais variados tipos de bromélias, com rosas brancas; sei que depois do muro tem uma árvore forte, com flores azuis; que depois do jardim tem uma casa no estilo colonial, com paredes brancas, pilastra e janelas grandes; que dentro dessa casa tem móveis antigos, cômodas da moda de outro tempo; que dentro dessa casa tem sofás com o estofado cheiroso; que lá a beleza se faz na rotina da existência; sei que há cupins nos armários, mas que isso é aceitável para que mesmo com toda serenidade haja algum pranto fazendo real a felicidade que existe lá. Tudo isso espera por mim. É preciso esperar que chuva chegue bem forte para que o muro se derrube sobre o céu, se estilhasse em pequeninas partículas voando para o espaço. Para que então eu entre, pisando na terra com os pés descalços, sentindo o poder de me sujar de lama. Eu poderia pular agora mesmo, e não só tentar ver o que me espera pra eu descansar, o esforço seria grande, mas a dor seria recompensada. Contudo, pular não é alternativa frutífera. Pois depois do muro há apenas um abismo sem fim.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Carta para um suicida

Eu poderia continuar por anos. Eu acordaria de novo, todos os dias. Eu dormiria de novo. É assim que se faz quando se está andando. O que espero de vocês não é compreensão, espero apenas que vocês continuem.

Essa noite, antes de dormir eu fiquei sentindo o meu coração bater. Primeiro do lado esquerdo do peito, depois no ombro, depois na barriga, no braço, na perna, nos pés. Meu coração bate no meu corpo inteiro, o tempo todo.


E se eu continuasse, o que faria com esse pulso silencioso que me agride o corpo?

E se eu continuasse, sempre seria isso, eu ia acordar de novo, eu iria dormir de novo. O pulso surdo e mais nada.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Para quatro amigos solitários

Eu não gosto de relógios barulhentos. Tenho sempre a impressão de que eles, os relógios barulhentos, se deliciam em nos dizer que estão passando as horas. Só podemos percebê-los durante a madrugada.

"Tac", um minuto... "Tac" outro.

São como um compasso que ditam as batidas surdas do peitoafeto. Nos tornamos seres atentos as miudezas sonoras. Há uma certa beleza nessa solidão acompanhada. Com um pouco de vinho é a velha e bem conhecida grande Beleza de qualquer coisa.

Sentados no sofá vermelho, esperando a vida se tornar menos etílica, escutando as batidas surdas uns dos outros. Parados. As tristezas cotidianas, os relógios barulhentos, "tac", "tac" é assim que ocupamos o nosso silêncio.
Uma boa noite, um bom dia,
e caso eu não os veja mais; uma boa vida!

domingo, 11 de julho de 2010

Diálogo

Ele: Sim, eu já estou indo. O instituto médio legal é perto daqui. Preciso só de alguns minutos pra descansar. É que eu andei muito hoje, estou sentindo minhas pernas bambas.

Eu: …

Ele: Parece que algo súbito aconteceu, não sei bem se foi enfarto ou atropelamento. Eu não consigo pensar sobre isso direito. Acho que na verdade estou esperando pra pensar sobre isso depois. Se eu deixar pra pensar depois posso resolver melhor o que tem de prático pra fazer por agora.

Eu: …

Ele: Não havia ninguém lá, ninguém conhecido. Justo hoje. Eu sei que andar rodeado não significa necessariamente não estar só. Mas é que não tinha ninguém lá. Me dá um dos seus cigarros?

Eu: …

Ele: Não, eu não fumo.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Depois daquele beijo

Hoje me ocorreu que entrei em choque por esse período desde de 23 de Abril. Apenas não respondia mais aos estímulos. Quando se tem uma experiência de vida forte, é preciso tempo pra que as outras coisas retornem ao seu peso real.

Perdi um grande amigo nesse meio tempo, um amigo que morreu pelos pulmões. A morte por asfixia é das mais simbólicas. Morrer sem ar pra respirar é morrer por algo que sempre acontece, mas que nunca nos mata. Não é sempre que se tem ar pra respirar. E cotidianamente nos perdemos coisas, perdemos pessoas. A perda faz parte da rotina, faz parte do estar vivo, mas não há o que notar, é simples, perdemos pelo caminho dia atrás de dia.

Perder um amigo é ver a felicidade enfartando. Nem sempre há saída simples pra acontecimentos simples. Deixar que os céus se acalmem parece ser o mais sensato, mesmo comigo não acreditando em sensatez. Pular do trem em movimento só faz ralar na brita. Estar em choque está compreendido exatamente entre pular e deixar-se acalmar. É como uma pausa na respiração. Só que pausar não mata por asfixia.

domingo, 25 de abril de 2010

Quando o desejo se torna saudade

(sugestão de trilha sonora: - http://www.youtube.com/watch?v=8gLWTtlMwo4&feature=player_embedded

agora sim a música tem tudo a ver... mas sei lá. escuta enquanto lê)

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Primeiro os olhares risonhos. Já está decidido, haverá o beijo, é apenas uma questão de segundos. Dez anos que esperam por mais poucos segundos. Uma história de exatos dez anos e poucos segundos. Toda espera é a de Beckett por Godot. Não há fim até que em algum momento o desejo se cumpre e a expectativa acaba.Os olhares risonhos já se acariciam, os olhares já se tocam, já se beijam. A aproximação física é depois do ato. É o começo do fim, a suspensão do vento, é o inacreditável se ocupando de si próprio. O toque dos lábios, ah o toque dos lábios! O toque dos lábios é começo da saudade, é o pior momento, é nele que se descobre o que se esteve perdendo por tanto tempo, o que continuará inalcançável, exceto no preciso recorte do momento beijo. Depois o toque das línguas, maciiiiiiiiiio.E por fim a saudade, outros exatos dez anos e poucos segundos.

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sonhei essa noite

sexta-feira, 26 de março de 2010

Conclusão de coisa alguma

Usamos palavras de mais. Por mais que o que se via eram somente os gestos. Falamos, falamos, falamos. Pouco parou pra escutar, não é assim que funciona. Nos pusemos à mostra. Sentamos na vitrine. Expostos. Talvez seria esse o melhor momento para o trabalho dos nossos ouvidos, mas não. Não é permitido. O combinado implícito é justamente o oposto, se ponha às ofertas e fale sem parar, somente assim o acreditam... É a loucura daquilo que não para, do que não pensa. Estar vivo e vivendo é cheio de consequências, as vezes idiotas. Cheio de surdez e de grito… por outro lado. Depois de tanto, fomos vistos. Até mais que isso: fomos apreciados. Aplaudidos. Nos disseram que fomos bravos, que pisamos em terra firme mesmo sem ver que estávamos andando.

Obrigado.

Mas depois do movimento, da fúria, do tumulto, eu apenas me pergunto: pra que tanto?