quinta-feira, 16 de abril de 2009

Aqui e ali

Há desilusão em tudo... por Deus!
Acabou-se a calma do mundo. Eu,
um homem acostumado aos festivais
desisti de ser criança.

e tristeza

quinta-feira, 9 de abril de 2009

E assim se passarão duzentos anos

Parte sem mim, sabendo que o que você deixou pra trás é bem mais que uma simples história. Parte sem mim, com a certeza de que não há como se perpetuar o contrário do que perpetuado estava. Parte sem mim, mas não vá tão longe assim, pois o tempo e o vento já são abstinências pra essa minha alma viciada. Parte sem mim, para um lugar melhor, ou ao menos um lugar mais calmo. Que eu não aguento mais as agruras dessa cidade cinzenta e gelada. Parte sem mim, e saiba que contigo eu irei, pois comigo você ficará. Parte, vá logo. Não se despeça; deixa o fim ser mais rápido que o começo, deixa a morte do nosso toque ser subta… deixa tudo, não leve nada material. Parta daqui sem tristezas eloquentes, pois a eloquência é corrosiva a esse sentimento que em si é tão profundo. Se se sentir triste por um momento que seja, é porque se encontrou sozinho com você. Parte, parte de mim.

terça-feira, 7 de abril de 2009

O encontro

A chuva chovia forte, era noite, e não tem problema. Ele já havia esperado o dia inteiro por aquela hora, e chovia. Não seria a chuva que o iria calar. Logo depois do almoço ele já estava pronto, mas somente sairia de noite. É que tem coisa que a gente não consegue simplesmente esperar. Talvez tenha passado pela cabeça dele que se arrumando tão cedo, seria como se ele proseasse com Deus, pedindo que o tempo passe bem mais rápido que o de costume. Vestia um terno marrom, uma calça marrom e um tênis pra corrida, alguma força maior disse que ele deveria calçar tênis e não sapatos, pois agora ele estava correndo. Tinha na mão direita um cigarro apagado pela água, e na mão esquerda ele não tinha nada. Mesmo com toda ânsia, ele decidiu chegar lá, assim, sem nada. Os seus óculos estavam molhados e ele não enxergava nada também, apenas corria. Ele não pensava em nada, apenas corria… “- será que quando eu chegar eu sorrio? E se não for o suficiente?”. Mil, talvez mais, os pensamentos desde o dia anterior não paravam de corroer a sua sanidade. Ele que sempre manteve as regras, nunca esquecia o guarda-chuvas em casa; e lá estava ele molhado pela chuva. Possivelmente sequer percebeu a chuva que logo pela manhã já se anunciava.
Ele tivera no horário de pico do dia anterior um encontro desses de alma, que é quando está predestinado que duas vidas vão se encontrar e que nada poderá ser mais forte que este encontro. Um encontro aparentemente corriqueiro, desses que sempre se tem com um monte de gente que a gente não faz e nem nunca fará a menor ideia de quem seja, pessoas que vão se tornando figurantes da nossa história, figurantes sem nome, sem cheiro, sem fala. São simples linhas de vida paralelas a nossa. Mas com os dois não poderia ser assim. Primeiro eles trocaram olhares, depois, porque um tinha ficado sem graça, ou porque o outro já havia decido fazer alguma coisa a respeito, eles se cumprimentaram; um olá tímido, à distância. Mas ainda não era o suficiente. E em meio a todos, despreocupados com o que as pessoas iriam pensar surgiu ainda à distância um subto“– como se chama?”, um pouco mais de tempo e nada os impediria falar sobre o tempo que andava chuvoso, ou falar sobre a moça, caixa do supermercado, que atendia a fila entre a deles, trabalhava muito mais rápido que os outros…
Entre silêncios eloquentes e resposta singelas não havia a dúvida que era um encontro que não tinham mais o direito de deixar que se tornassem um para o outro o que qualquer pessoa que se encontra na fila se torna, um simples figurante. E assim, tendo ido embora sem planos, ou ao menos sem terem trocado telefones, a única coisa que ele sabia era que o outro, ainda estranho, morava no terceiro prédio, da avenida principal da cidade, e que estaria em casa depois do trabalho que iria até as oito da noite.
Sentindo que não poderia deixar que isso se perdesse no tempo ou no espaço, agora estava ele correndo, e sorrindo, em baixo da chuva, passando pele vigésimo terceiro prédio da avenida principal. É possível ver daqui o que já estava concebido. Uma longa história de linhas entrelaçadas; quando de repente, inesperadamente, como um tapa de Deus; o caminhão de lixo, grande, forte e potente, exatamente entre o vigésimo segundo e vigésimo primeiro prédio da avenida principal da cidade, inrrompeu à traço forte, um encontro corte na linha, deixando um desenho imcompleto no marco zero do tempo... e enquanto o outro esperava, com a forte sensação de que ainda esta noite ele iria de novo se reencontrar com aquele que já não era mais um estranho, um caminhão de lixo pôs assim, um ponto final nessa história sem fim.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

O surto

As pessoas andam virando bolha, assim sem mais nem menos, de repente bolha! Sei que em breve fecha-se-rão os cinemas, as bibliotecas, praças e tudo mais que tiver portas. Ninguém sabe como isso acontece, se é contagioso, se é vírus ou se não é nada. Estou começando a ficar assustado. Tem muito tempo que está acontecendo e não se fala nada a respeito, ainda sequer é notícia. - Grita pra ver se alguém escuta! Me sinto pequeno, na ordinária condição de homem comum. A bolha não pensa raça, credo, nacionalidade ou status, ela simplesmente pega. De repente bolha! Não há remédios ou solução. Nada se pode fazer senão, complacentemente, tornar-se. E em meio a tudo isso, o estranho é que quando fecho os olhos, tudo que me vem é a imagem de um longo pinheiro, grande, por tocar o céu, sereno e profundo... – Grita pra ver se alguém escuta!

segunda-feira, 30 de março de 2009

- Desculpem, falhei

Tem alguém aqui pronto pra falar da bizarrice das coisas? É preciso que tenha, é preciso... porque eu não posso mais continuar tentando... acho que não há mais o que dizer, talvez nunca tenha tido. Minha memória não é tão grande assim, não vi nada demais, sou comum até no modo de pensar, minha imaginação não é grande também;
É tudo muito desorganizado, sabe? Na desordem que está não serve pra nada, nem pra mim, nem pra ninguém. Acho que esta é minha falta maior. O fiasco do que dizer. A falta de assunto, a falta de personagens heróicos, a plena incapacidade de matar alguém, ou de apenas dar vida. A falta de imaginação, e de técnica, para desenvolver uma história qualquer. Eu queria falar sobre a vida das coisas, eu queria dizer sobre os detalhes não vistos. Ter o relato, a descrição, queria visualizar os momentos, os pequenos âmbitos efêmeros do que não se percebe, algo que construísse em si um início e um final, que contivesse em um retrato, ação do começo ao fim, fazer da parte o todo, do fragmento a completude. Isso não podia ter sido ambição demais. Não tinha o direito de ser meu fracasso, justo isso que é meu poder, o único lugar onde eu poderia escolher entre o sim e o não. Meu único elo de ligação com o que não é profano. O orgasmo com os Deuses.
Aqui, o lugar onde eu vivo e morro, o lugar pra onde me refugio, o lugar que me sacramenta é também, sinto em dizer... o lugar onde não existo.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Roseiral

Feche os olhos e imagine o tempo se fundindo com a pluma solta livremente embarcada no vento.

Tente ver a vida do que é coisa, que nasce e morre sem sentido. Tente ver, de olhos bem fechados, a crueza e a complexidade do belo. Tem coisa que só se constrói no total fracasso mental; coisa que se faz pelo grotesco de si própria, criações de flores num mundo de merda.

[flores num mundo de merda, merda são num mundo obcecado por flores]

Isto não é a resposta de nada; Isto não quer ser nada; Isto não tem porquês nem por onde. Não comunica nem expressa, não desentala, não colabora; Isto é merda num roseiral; Isto é corda que enrolada, preparada pra enforcar pescoços estranhos, mesmo que conhecidos. Essas palavras também não fazem o menor sentido.

domingo, 15 de março de 2009

Que o dia amanheça

Ele é como uma flor murcha, cheia de passado, que mesmo à beira da morte carrega em si a vida na sua essência. Ele pára pelas noites e olha, acho que é porque enquanto ele está vendo não está sendo visto, foi assim que se tornou espectador de histórias perdidas em esquinas, e traseiras de ônibus, as maiores histórias do mundo. Ele é a única testemunha de si próprio, não há solidão maior que sua, não há tristeza maior que sua; ele sente… e transborda. Desaprendeu a chorar. Porque o choro é como um jeitinho nas coisas, chorar pra doer menos. sob o sol, ele esperava. O vento batia, a chuva caia, mas sob o sol ele esperava. E de tanto esperar, um dia sem mais nem menos ele escreveu. Começou falando como era esperar sob o sol, que o calor que ardia não era tão ruim assim, na verdade era como a alma acalentadora de Deus. Falou das chuvas chuvosas, dos ventos ventantes, dos dias que nem chovia nem fazia sol, dos dias sem nuvens, dos dias sem cor, dos dias sem dia. Os seu coração que guardava se espalhou por papéis. Noutro dia, assim também, sem mais nem menos, escreveu uma carta, contando a história de um cidade onde as pessoas viravam bolhas, história dessas, sem pé nem cabeça, que dá na cabeça da gente. Postou sem remetente, no correio em um endereço inventado pra que um dia alguém se cansasse daquela carta fechada, sem ter sido lida, afinal as letras são a combinação de tudo que há no mundo. E depois disso, ele se sentiu grande, se sentiu preenchido como nunca havia antes, não tinha mais como parar, seu coração aprendeu a se espalhar de diversas formas, por bilhetes pra estranhos, por anúncios em jornais, por frases em muros abandonados, por notas de um real. E tanto fez; e tanto fez; que nem percebeu que a única história que continuaria a morrer com ele era a única incontável… a sua. Como um balão que vai enchendo, enchendo e quando estoura, se dissipa, acaba, some, consome… desencanta.